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Prefeitos e a arte de governar fora dos municípios
Marcos Dantas
“O que oprime ao pobre para se engrandecer a si, ou que dá ao rico, certamente empobrecerá” Provérbios 22:16
HÁ QUEM DIGA QUE OS PREFEITOS SÃO VÍTIMAS DO “TOMA LÁ DA CÁ” EM GOIÂNIA E BRASÍLIA
(24.04.10)Uma realidade nova que já é encarada como rotineira é as viagens dos prefeitos às capitais Goiânia e Brasília. A ausência dos mandatários municipais em suas respectivas cidades é questionada apenas por aquele cidadão que ainda não tem o conhecimento pleno da necessidade do gestor que foi eleito para administrar o município, de viajar para buscar recursos ou mesmo se fazer presente em atividades que o deixa em contato com parlamentares das esferas estadual e federal. Penso eu que, ser prefeito é ser artista em um palco nem tanto iluminado...
Há um dito popular que afirma “quem não é visto não é lembrado”. Essa mudança de comportamento mais perceptível quanto a ausência do alcaide na sede do município se verificou a partir da década de 90. Isto pode ser atribuído a fatores como a modernização na maneira de administrar dos gestores, bem como a capacidade técnica dos seus auxiliares que proporciona a liberdade do prefeito de se deslocar sem tantos prejuízos à administração (embora existam prefeitos que causam prejuízos aos cofres públicos sem ao menos ir à cidade mais próxima), no entanto, as viagens principalmente à capital federal são justificadas pela busca constate de recursos, acompanhamento dos projetos nas secretarias, etc.
É claro que nem tudo funciona como mandaria “o figurino” e, a ausência do prefeito às vezes causa desconforto para o que naquele dia precisa falar com o gestor que é o responsável maior por decisões que só a ele compete tomar. Porém, a delegação, ou seja, a descentralização do poder já é fato e cada vez mais necessário devido a impossibilidade da onipresença do alcaide. Mas isto não isenta da culpa alguns que na verdade usam o expediente da viagem para se locupletar das vantagens que as diárias lhes oferecem, ou mesmo para fugir das responsabilidades e até mesmo do assédio popular, por emprego e outras reivindicações mais justas. O telefone fixo, o celular e a internet (MSN) facilitam as consultas dos assessores e, alguns despachos são efetivados por esses meios de comunicação.
Que a presença dos prefeitos em Goiânia e Brasília é de vital importância, não resta dúvidas. Contudo leva-nos a refletir sobre o “vício político” que se cria em relação aos deputados que sentem a necessidade da fila de prefeitos em seus gabinetes com o “pires na mão” pedindo que seja colocada uma emenda parlamentar no orçamento que beneficie os seus municípios. No mínimo é mostrado uma outra face desse contato, em muitos casos, parecido um suborno, um aliciamento por um compromisso de votos na próxima eleição... Deputados e senadores virem aos municípios entregar tratores e implementos agrícolas é desdenhar da inteligência do povo que sabe que parlamentar é para legislar e fiscalizar os atos do executivo e não fazer cortesia com o chapéu alheio, ou seja, com o dinheiro do próprio povo.
Pode-se atribuir este ato indecoroso ao governo federal (independente de quem esteja no comando) que, por sua vez, devido a necessidade de sustentabilidade no Congresso abre a brecha das emendas parlamentares como instrumento de vinculação para a captação de votos para deputados e senadores, via prefeitos, em troca de apoio. A meu ver, bastaria apenas um projeto protocolado pelos municípios e isto seria o suficiente para a liberação dos recursos. A troca de favores, o compadrio vergonhoso de décadas passadas que sempre imperou na politicalha força ainda hoje os mais arrojados e bem intencionados gestores a serem serviçais deste sistema nojento, sob a pena de ter a sua administração fracassada por falta de investimentos federais, considerando os baixos valores dos repasses e a baixa arrecadação da maioria dos municípios.
Desculpe-me leitor, acabei por sair do foco principal deste editorial que é “a arte de governar fora dos municípios”. Mas a realidade é que o munícipe que se sente meio que órfão ao procurar o prefeito no gabinete e não encontrá-lo, deve redobrar a sua capacidade de compreensão e ainda ser solidário com seu prefeito que sabe dos prazos que deve cumprir para entregar documentos para liberação de verbas federais, e da necessidade urgente de investimentos em todas as áreas no município, cumprir promessas de campanha, fazer o dever de casa que vai além de pagar folha e fornecedores. O ‘mendigo-prefeito’ é uma vítima do “toma lá da cá” em Goiânia e Brasília, segundo alguns cientistas políticos, mais políticos que cientistas... Fica a pergunta, será que precisa ser cientista para se saber disto?
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