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Oeste de Goiás, 20 anos em atraso e com uma riqueza a ser explorada


Marcos Dantas

(26.05.09) É preciso coragem para defender a política extrativista em escala comercial do Cerrado como economia sustentável. O Cerrado em pé, em sua agonia de morte, ainda é a saída para a vida em todos os aspectos de milhares de pessoas da sofrida região oeste de Goiás. Diz uma música popular que a fila anda, referindo-se ao “progresso do ficar” entre os jovens, quando o namoro é coisa ‘demodê’. Segundo os “ficantes”, se um demora, logo o outro ocupa o lugar e assim sucessivamente, a ciranda não pára. Mas o que tem a ver o atraso da região oeste de Goiás com a “fila andou dos ficantes”?

Muita coisa em comum, partindo do princípio de que os municípios são de fato o povo e não o território, pois sem este não haveria cidades, e muito menos o campo habitado. No caso, o tempo é a fila, todos os habitantes da região são os ficantes (ficamos para trás) que na verdade assistem o andar da fila, o progresso, ainda que a passos lentos chegar a outras regiões e o oeste de Goiás estagnado há 20 anos.

No seminário ‘Goiás de Todos Nós’ realizado dia 22 de maio em Iporá, pelo deputado federal Rubens Otoni (PT/GO), quando reuniu lideranças de 25 municípios do oeste de Goiás, 10 prefeitos, 5 vices-prefeitos, dezenas de vereadores, secretários municipais e professores para reunir reclames e sugestões concernentes a região, com o intuito de se elaborar um documento que será denominado Plano de Desenvolvimento Sócio Econômico de Goiás...

As necessidades foram apontadas, as sugestões foram dadas, agora é necessário que de fato os anseios e as idéias saiam do papel. Como morador da região oeste goiana, também espero que tenhamos os olhos dos governos federal e estadual para cá. Goiás se arrasta carecendo de uma política arrojada de desenvolvimento. Chegou-se ao ponto de não se ouvir a voz da oposição na Assembléia Legislativa (isto é bom ou ruim?), ao que parece, tudo em nome de um acordo político vindouro.

O economista Fernando Safatle, no seminário ‘Goiás de Todos Nós’ revelou os números da estagnação do crescimento sócio-econômico da região que fez o ex-prefeito de Aragarças, advogado Hélio Fernando se emocionar quando falava sobre seu anseio de muitos anos por ver o crescimento conjunto-regional. O Atual prefeito de Aragarças, Marcão, comparou municípios mato-grossenses com os goianos e destacou a vantagem dos vizinhos frente aos de Goiás.

Segundo dados de outras fontes, os dezoito municípios da região filiados à AMMA (Associação dos Municípios do Médio Araguaia), possuem no conjunto um território de 23.853,50 km², aproximadamente 2.385.350 hectares de terras e conforme os dados do IBGE/Censo 2000, abriga uma população regional de 138.205 habitantes, distribuídos em 31.177 habitantes na zona rural (22,55%) e 107.028 habitantes na zona urbana (77,44%). O território regional, além dos centros urbanos, está sob o controle de 7.366 proprietários rurais, dos quais 2.401 são considerados pequenos (32,60%), 3.687 médios proprietários (50,07%) e 1.275 grandes fazendeiros (17,31%).

A incrementação da Agricultura Familiar, pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário, e os APLs (Arranjos Produtivos Locais) mantêm um certo equilíbrio no orçamento de centenas de famílias. Porém, a demanda por emprego é crescente e a região é uma das maiores ‘exportadoras’ de mão-de-obra não qualificada para centros como Goiânia, Brasília e para o Triângulo Mineiro. Poucos desses jovens mudam para estudar, pois seus pais não têm suporte financeiro para mantê-los fora.

Os ‘ficantes’, após o ensino médio, com muito esforço cursam faculdades como a UEG (Universidade Estadual de Goiás), e outras conveniadas com os municípios, a exemplo da FAI (Iporá), FMB (São Luis de Montes Belos), Fesurv (Rio Verde/Caiapônia), FAJ (Jussara), e a FESA (Aragarças). Muitos ainda estudam na UFMT (Pontal do Araguaia/Barra do Garças) e nas particulares Cathedral e Univar (Barra do Garças).

A frágil economia familiar da pecuária de leite (que só fortalece os grandes laticínios), somado as dificuldades para se diversificar a renda pela agricultura deixa em xeque os pequenos produtores que tendem expandir as fronteiras da pecuária, encurralados pelo aperto financeiro, ou mesmo pelo comodismo e a falta de educação que os deixam despreocupados com o crescimento sustentável. A cultura de se plantar o arroz e o milho precisa ser passada de pais para filhos, o que barateará a mesa do produtor, além de regular o mercado.

As lavouras de soja, o cultivo em escala industrial da cana são anseios pela agro-industrialização da região. E pode trazer renda, especialmente a cana, para trabalhadores que precisam do serviço, mas é um desenvolvimento que merece ser questionado sobre seus limites, e o custo benefício para todo eco-sistema que habitamos. As fronteiras agrícolas e pecuárias não podem massacrar o que ainda resta do Cerrado. A alternativa econômica, até mesmo o que descentraliza o capital, sem sombra de dúvida é o agro-extrativismo sustentável.

O Cerrado que nesta Semana do Meio Ambiente, volta a ser discutido no Congresso a sua elevação para Patrimônio Nacional, conjuntamente com a Caatinga, é uma fonte de riquezas que precisa ser explorada. A produção do Cerrado pode ser exportada com bons lucros para produtor, trabalhador, beneficiador e exportador. O Consumo interno dos frutos in-natura e de produtos derivados desses frutos deve ser incentivado desde a cultura familiar até a escola.

Já passou da hora da elaboração de um projeto para o cultivo em escala comercial da produção do Cerrado (Pequi, Baru, Jatobá, etc.). Esta é uma política que se deve ter a coragem de defender. Está mais que provado que a atividade extrativista artesanal sustenta algumas famílias e mantém economicamente exportadores isolados do baru no eixo Goiânia/Triângulo Mineiro, portanto é viável a atividade e carece de regulamentação, pois ela muda conceitos e fomenta a conservação e preservação do Cerrado em pé, em sua agonia de morte, ainda é a saída para a vida em todos os aspectos de milhares de pessoas da sofrida região oeste de Goiás.

Os prefeitos mais que ninguém sabem da carência financeira dos seus munícipes pela falta de pagamento dos impostos municipais, podem, a exemplo de Caiapônia e de outros municípios, incentivar a criação de associações de extrativistas artesanais com a finalidade de transformá-las em cooperativas, intermediando com os fazendeiros o acesso dos associados às suas propriedades para a extração sustentável do baru que tem valor comercial, e assim alimentar um APL (Arranjo Produtivo Local) que servirá de arrimo a muitas famílias. As secretarias municipais de comércio podem inclusive incentivar a agregação de valor ao produto beneficiado para que chegue ao mercado de centros como Goiânia e Brasília, onde o preço do litro de baru custa até 50 reais.

jornallocal@jlocal.com.br

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