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O ronco da “gripe do porco”
Marcos Dantas
(02.10.09) Diz o dito popular que de “louco e médico todos nós temos um pouco”. Por isso aqui darei meu ‘pitaco’ sobre o poderoso e temível vírus H1N1! Ainda bem que tivemos um Sócrates para filosofar “só sei que nada sei”, com isso somos todos habilitados a falar, ou escrever sobre quase tudo... até mesmo sobre o AVC (Acidente Vascular Cerebral/derrame), infarto (parada cardiorespiratória), acidentes de trânsito, complicações por diabetes, câncer de próstata, câncer do colo do útero, vírus HIV (Aids), hepatites... (que matam e deixam mais sequelas que todo um chiqueiro de gripe suína). Lembra da epidemia do vírus ébola? E da gripe da galinha? Ficou quanto tempo nas manchetes? Foi uma época para venda em série das máscaras...
É comum se dizer à crianças quando estão assustadas ou muito peraltas “esse menino(a) está vendo televisão demais”. Essa observação cabe bem aos adultos que não tiram os olhos da TV, sedentos por pandemias, epidemias, tsunamis, terremotos, matanças, e outras catástrofes. O mundo todo oferece via rádios, jornais e TVs um cardápio opcional de programações para satisfazer todos os gostos e desejos. O sensacionalismo é o tempero das manchetes que atraem olhares e ouvidos curiosos. Essa eficiente, eclética e ecumênica rede de informação e entretenimento também é responsável pela inversão de valores e dos bons costumes são mortos a cada cena de “quebra de paradigmas” em nome da discussão da homo-sexualidade, da violência contra a mulher, virgindade, casamento, fidelidade, obediência aos pais, respeito aos mais velhos, aos professores, etecetaras.
Saudade do tempo lá da roça quando sentados na cerca do chiqueiro a meninada gritava por causa do colega que era derrubado pelo porco que montava como se estivesse em um grande rodeio. Na hora do almoço, algum daqueles suínos instigava o paladar e saciava a fome da família. Mas em tempos de gripe suína houve considerável queda no preço da carne de porco, pois erroneamente se acreditou que se pegaria a gripe comendo a carne do filho da que ronca e fussa. Lá na roça todo mundo criava porco, e me lembro que tinha época que os danados tossiam e dos seus focinhos escorriam uma secreção e os velhos diziam “esse bicho ta difrussado, ta na hora de matar pra nós comer”. As mesmas TVs que tão eficientemente “propagam” o vírus H1N1 estão incompetentes para oferecerem programas humorísticos de qualidade para a mesma população que assiste aterrorizada o “fim do mundo”, merecedora, portanto, de momentos ainda que curtos, sem a invasão de cenas e enredos sem graça e batidos envolvendo homens em personagens com trejeitos femininos. Rir ainda poderia ser o melhor remédio...
Tempos modernos! Modernas também são as doenças, os vírus... modernas ainda são as formas de se espalhar uma epidemia que em tempos idos era necessário alguma forma de contato (lá no chiqueiro porco e gente era misturado...) para uma contaminação, mas em tempos modernos esse contato ganhou força e rapidez pelo rádio, televisão, internet e coisa e tal. A contaminação se dá no virtual mesmo, as mentes são bombardeadas a todo instante. Então fragilizadas pelo medo tornam-se um terreno fértil para a semeadura do pânico. Parece-me que a gripe suína é tão antiga quanto o ronco do porco, mas só agora virou pauta das redações jornalísticas.
Tempos antigos, éramos felizes e não sabíamos. O mau costume das mocinhas e de algumas damas atiradas era “pregar a orelha” no rádio para escutar novelas. TV era coisa por demais desconhecida, só os ricos tinham e assim mesmo no preto e branco. A boa notícia vinha era pelo Repórter Esso... Quase ninguém acreditava no que a TV mostrava. Em 1969 o homem pisou pela primeira vez na lua, a televisão mostrou, mas até hoje tem gente que afirma ser aquelas imagens uma montagem do “império estadunidense”.
Hoje a TV mostra uma cena com o povo dos “olhinhos puxados” usando máscara contra o H1N1, logo alguns de nós de cá, povo dos “pezinhos rachados” também coloca as máscaras. É a nova moda! Eu vi na TV. Até já pensei em montar um grande negócio, vender máscaras e Tamiflu/fosfato de Oseltamivir (da terra de los hermanos) contra H1N1. Já pensou, tenho a mídia do mundo inteiro fazendo propaganda a favor do meu bolso, à custa do pânico alheio. Um negócio de oportunidade! Meses há frente, qual será a manchete? Preciso ficar ligado para não perder mercado...
Não entendo de patologias, nem de noticiarias, nem de boataria, nem de outras ‘porcarias’, faço minhas as palavras de Sócrates, só sei que nada sei... assim sendo, aconselho que para a felicidade geral da nação o bom mesmo é duvidar dos “mancheteiros” de plantão. Façamos igual o povo sábio dos tempos idos, não ir acreditando em tudo que te empurram ouvidos e olhos à dentro, te inseminando de enfermidades, viroses, psicoses, parapiscoses, politicoses, apocalipsecoses, nascidas em laboratórios e gabinetes que servem de pano de fundo para encobrir outras loucuras bem mais letais que o ronco da gripe do porco. Apenas uma coisa ficou patente, pelo menos nos estados do Centro-Oeste, não temos laboratórios competentes para análises eficazes de certas doenças, sendo necessário que o material colhido seja encaminhado para o eixo Rio/São Paulo, onde se espera até 15 dias para se obter o resultado. Seria um monopólio ou mesmo incompetência dos governos estaduais e federal de dotar esses estados de recursos técnicos e humanos para servir melhor a população centro-oestina?
* jornallocal@jlocal.com.br
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