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Pelo Rio Araguaia


(12.03.08) Você me pede, Homem, que fale de mim mesmo, dentro da História e estórias que escreverá, estranho caso de um mudo conversando com o dono da palavra, numa linguagem que ninguém jamais pronunciou, leu, escreveu ou escutou. Vou lhe atender, Homem, porque Você me chamou com os dois braços de abraçar: o Amor e a Poesia. Mas lhe direi poucas das coisas que fascinam os seus irmãos, porque as águas de todos os rios vieram de tão longe e nelas as coisas aconteceram há tanto tempo que suas lembranças foram guardadas para ninguém. Apenas lhe direi que versos e prosas Você deverá cuidar e escrever.

Outros, muitos outros Homens, por mim passaram mas nada me perguntaram, tão cegos estavam por miragens além de meus barrancos, que nem sequer me enxergaram: miragem de distâncias, miragem de glebas, miragem de pequeninos pedaços e folhas dourados, miragem de pedras que multiplicam os raios de luz, miragem da própria Vida que lhes seguia sempre em dianteira, esquiva e inatingível.

Alguns quiseram saber de tudo com detalhes, o que guardo em meu leito de areia e de pedras, o que escondo nas curvas do meu vagar, os lagos que faço, desfaço e refaço ao longo do meu curso, o tamanho e a qualidade das florestas que se debruçam sobre meu espelho de águas em saudação amorosa, a extensão de meus campos e cerrados, aonde vão as trilhas, picadas e batidas abertas pela andança de meus bichos e alargadas pelos passos de meus filhos nativos, meus carajás de anéis de tinta nos malares, donos deste universo.

A nenhum desses falei ou falarei, mas conversarei com Você, Homem, e com quem pare para me olhar, para escutar os acordes regidos pelos ventos, para sentir o perfume sutil das sombras e por elas caminhar em cuidados de vigília, para pisar livremente em minhas praias juntando as marcas de seus pés às pegadas dos animais e riscos das aves ribeirinhas e sobre eles dormir sob a noite de mistérios e de sons furtivos, noite densa, noite de amantes sem sexo. Em vésperas de nuvens leves, milhares de sapos juntam seus cantos e o coral dos animais agachados enche de sons a natureza e a tal ponto que nada mais se escuta dentro da noite. De repente, sob meu comando, longe ainda da manhã, todos de repente interrompem melodias e harmonia e na extensão sem limites das lagoas, encharcados e pantanais, o silêncio desce profundo, tal respiração estancada, como silêncio de Deus. Mas antes que comece, quero que saiba, Homem, que nós, os Rios, somos os que mais conhecem de todas as terras e de todos os seres, porque assistimos ao fazer de universos e nos livros das águas registramos suas histórias. Nós não nos unimos apenas nas confluências ou desaguadores que levam ao Mar mas – nesta origem e destino – juntamos nossas correntezas e nossa experiência. Somos todos irmãos e nos sabemos uns aos outros e ao fim constituímos uma grande família horizontal em eterno remuo e quem quiser saber do que aconteceu e acontecerá que nos pergunte e a verdade – nossa verdade – lhe será revelada.

Não, meu nome não é Araguaia, apelido que seus bandeirantes roubaram da língua de meus filhos e que quer dizer Rio das Araras – tantas e tão vermelhas e tão azuis – e que me atravessam cantando com sua voz gutural. Nem é Fermoso Braço, nome antigo de brancos, que o seu jesuíta Antônio de Araújo me chamou como a indicar que sou parte de rio maior, anteontem Marañon, ontem Pará, hoje Amazonas; nem tampouco sou o Paraupava, que nos velhos mapas imperfeitos dos Homens ora era um rio de largura de vales, ora um lago imenso, mas que na realidade era apenas vargens alagadas nas enchentes em que todo ano visito a terra. Meu verdadeiro nome é Ber-ô-can, Rio Grande na língua dos brancos e pelo qual me conheci. Mas Vocês se encantaram com o de Araguaia e até convenceram meus filhos nativos a assim me chamarem e assim os carajás quiseram que Araguaia seja meu nome.

Sou o mais puro e brasileiro dos rios. Não tenho águas brotadas em chão alheio nem vou servir a estranhos e muito menos me apresso em cortar caminhos, pois corro pelos centros acariciando o dorso do Brasil e o Mar está bem perto de meu berço e este bem longe do estuário onde vou morrer, não de morte natural, mas por furto de identidade. Somente um irmão nosso, carinhosamente chamado de Velho Chico, é brasileiro tanto quanto eu, mas não em distância, pois não navega pelo espigão e logo, atraído pelo Mar, foge à direita, se alaga em Sobradinho – lago feito pelos Homens – se despedaça em Paulo Afonso – queda domada – para se espraiar, manso, no Atlântico de coqueirais plantados, vindos de outras terras.

Sou mato-grossense e goiano de nascença, a quem limito mas não separo, e de mãos dadas com os dois percorro duas metades das três que tenho a viajar – três mil quilômetros ao todo – e no caminho do Norte uno o Centro ao Pará. E no ponto onde me findo em angústia vem o Maranhão me beijar em despedida, terra de gente sertaneja e andeja como eu.

Nenhum outro rio desta terra que abençôo merecia a graça suprema de se terminar no Oceano, destino natural e glorioso de quem serviu à Grei e ao Homem, Fim em lugar de Morte, terminação de Ocasos, Vida completada a serviço de todos os Deuses e não vítima de guilhotina que não corta, mas apenas rouba o nome e sobrenome. No triste lugarejo de Apinajés, sem beleza e sem grandeza se aproxima o irmão Tocantins, vindo de meio-caminho, quase sorrateiro em seu curso pobre de cores e desaparece em meu largo seio de águas claras, libertas entre meus barrancos baixos e distanciados mas ainda sacudidos pelas correntezas de Santa Isabel. Histórias, romances, heroísmos e feitos, rumos e caminhos, Poesia e garimpos, Homens e lendas, Martírios e Contemplação, tudo ficou para trás e naquele momento de decisões é ele – ou seu nome – que conserva a identidade e caminha enriquecido pelas minhas águas para rodear Marajó, compor o estuário amazônico e se batizar com o sal Atlântico. Já que Você, Homem,tem ouvidos de me ouvir, caminhe comigo nesta Jerulém sem pedras e sem cruzes e transmita aos seus irmãos brasileiros o triste lamento de queixa do que fizeram ao velho Araguaia nacional, sacrificado em seu próprio leito.

Quero que fale de meu berço, já repartido em dois Estados, onde caminho esbelto e tímido e ao receber irmãos dos dois lados adquiro força e determinação. Chama-se Alto Araguaia meu Estábulo, indicado pelas estrelas do Cruzeiro do Sul e em sua vizinhança Reis trouxeram e sementearam seus presentes de ouro, prata e diamantes.

Peço que fale dos fundões e das correntezas, dos travessões e dos barrancos que ora se fecham estrangulando o curso, ora se abrem em amplidões inesperadas, e das ilhas que confundem os viajantes noviços, levando o canal de um para o outro lado. Diga dos lagos que saem de mim e se escondem em recônditos misteriosos ou que acompanham meu caminho, abertos ao meu lado ou redondos, fechados e escuros, redutos de meus animais de porte e de peixes mitológicos. Entre eles meus botos, amantes de fêmeas fantasiosas em cios impossíveis e descreva como eles seguem os Homens e seus barcos no descer das águas. Repare bem que nem sempre volteiam dentro dos cardumes que salpicam a superfície, mas em seus movimentos apenas estão indicando o canal onde a embarcação deverá passar sem perigo, o fundo raso que a encalhará por muitas noites ou os troncos escuros, meio-submersos, que traiçoeiros despedaçarão suas madeiras.

Descreva principalmente minhas praias deslocadas a cada ano, onde minhas aves e pássaros pousam e as transfiguram e os bichos vêm deixar suas marcas nas madrugadas e fins de tarde. Conte das minhas enchentes masculinas e invasoras, sombrias e ameaçadoras, como garanhões à procura de fêmeas para procriar, emendando a superfície dos lagos, derrubando barrancos e arrancando árvores inteiras que passam a viajar comigo, enquanto o céu é temporal permanente e as vargens se recobrem do lençol derramado, ilhando cerrados, homens e animais amedrontados.

Mas fale também das vazantes anunciadas pelos peixes que pastando nos campos, levados pela cheia, dão meia volta e iniciam a retirada ao leito natural. Nelas não somente mudo de tonalidades mas também de sexo, torno-me feminina, preguiçosa e sensual, recortada de praias sugestivas de leitos onde homens e animais vêm me possuir em lascívia, o corpo em curvas impossíveis. Em cada ano minhas praias – como suas mulheres – mudam de aspecto e de pintura, aparecem onde nada havia e somem dos areais e dos barrancos aos quais se uniram no ano anterior.

Lembre e escreva principalmente dos meus filhos nativos se banhando em minhas águas, arpoando peixes e flechando animais e nas noites de celebração dançando o Aruanã, as minhas filhas redondas de corpo descoberto no vaivém de adolescentes. Descreva os cocares e colares, as miçangas e os enfeites feitos de penas do colheireiro e das araras, as grandes festas no terreiro, o matraquear dos paus ocos, a vida olímpica das tribos e aldeias, o mundo feito por Deus e os carajás vindos do fundo da Terra. E complete a narrativa com a invasão dos Homens brancos armados de fogo, vestidos de roupagens sem sentido, empesteados de ambição e de moléstias e do que fizeram aos meus filhos, debandados, adoecidos, estuprados, mortos e desaparecidos.

Conte das viagens e paragens dos que trouxeram cruzes e mistérios tão distanciados de nossas verdades, escritas em livro nenhum, mas transmitidas de uns aos outros.

Enalteça sem limites meu primeiro filho adotivo, bugre de meio-sangue, - Cândido Mariano da Silva Rondon – caboclo de penetrações continentais, armado contra meus filhos nativos apenas com seu olhar de pureza e de irmão. Recorde os poetas e os artistas que fixaram em molduras o imenso mundo meu sem guarnições e despreze os que escreveram coisas fantásticas jamais acontecidas e eleve os puros de observação como Couto de Magalhães , que sonhou acordado com a navegação que boiou e naufragou no mesmo local. Não esqueça os feitos desordenados dos visionários sozinhos, como Hermano Ribeiro da Silva, em busca do que fosse mais árduo e mais distante e no Araguaia findado em sonhos e sofrimentos; de Francisco Brasileiro, rendido aos meus encantos nas vazantes e sacrificado no filho perdido que tinha meu nome como do irmão; do Frei Gil Vilanova, consumido no fogo de catequese sem proveito, viajante sertanejo iluminado pelo desmedido esforço, e os irmãos Fuchs e Sacilotti, símbolos dos tombados sob o golpe de bordunas mal esclarecidas; do Padre Nunes, sertanista nas férias de mil alunos e educador do sertão, a quem a Natureza e a santidade lhe deram a auréola dos cabelos brancos. E não esqueça meus últimos filhos adotivos, três irmãos, de nomes de tribos de Goiás, Leonardo, Cláudio e Orlando, cujas existências e pasmosa atividade foram totalmente dedicadas aos índios seus irmãos e meus filhos nativos.

Preste a devida homenagem aos homens que procuraram nos desvendar – tarefa tão fácil quando se tem simplicidade na alma – e que por vezes se impressionaram mais com as diferenças entre descobridor e descobertos do que com a singela constatação do que somos, rios e indígenas de minhas praias. Louve aqueles que, aproveitando seus conhecimentos ou o inato amor à natureza, pregam a conservação da festa permanente e eterna que pretendemos conservar para as gerações. Acuse a todos os que se servem de mim e de minhas praias e lagos e deixam a melancólica lembrança de trapos pendurados nas ramagens, sujas bandeiras da destruição à frente de legiões de soldados-latas; esperando em egoísmo que a cheia, que certamente virá, remova o triste espetáculo que deixaram como fiel cartão de visita.

Não esqueça os faiscadores visionários da Fortuna buscando e rebuscando ouro e brilhantes e que no duro trabalho criaram cidades, promoveram guerras sem sentido, resistiram a governos, migraram com os fracassos, desperdiçaram com os bamburros e morreram afogados nos escafandros de brinquedo. E compare a legenda desta busca desesperada com o planejar de projetos de tranqüilos homens em vestes de computador, descendo alados em campos de riquezas desvendadas pelo radar.

E por fim, com os mesmos braços de Amor e Poesia, abrace os seus Homens, todos os Homens que, como eu, ampliaram a terra brasileira abrindo caminhos, varando serras, navegando a remo e sobrevoando picos.

Mas, mesmo que ponha na empreita todo zelo e poder de desenhar que possua, fique certo, Homem, que apenas descreverá a menor das curvas do meu leito e pintará somente a tênue claridade da madrugada que me iluminará.

Tome seu caminho, ande a pé quanto possa, navegue em ubás, montarias, voadeiras e barcos de dois andares, levante o pó das estradas pioneiras e vare as nuvens sem me perder de vista, estude e retrate, abrace como irmãos meus filhos nativos e Você voltará transfigurado. Então conversaremos mais longe e mais profundo, Você, Homem brasileiro e eu, Rio Araguaia.

Excerto do Livro, “Rio Araguaia corpo e alma” escrito por Durval Rosa Borges
Colaboração: Maurílio Alves Neto


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