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A nova polarização boliviana
“COLABOREM PARA QUE LIBERTEM MEU FILHO”
Por Isaac Bigio*
(09.01.06) - UMA PROJEÇÃO SOBRE O FUTURO GOVERNO DE MORALES - A em massa eleição de Evo Morales como presidente boliviano afetará a toda a região. É o único governante de seu país que obtém maioria absoluta desde a época em que o Movimento Nacionalista Revolucionário (1952-64) atuava como virtual partido único institucional com um formidável controle do aparelho estatal. Os 54% que obteve de aprovação é superior ao que qualquer partido de esquerda de oposição tenha obtido na América do Sul. O primeiro governante indígena, camponês e sindicalista da cuenca do Titicaca pode fazer o governo mais esquerdista do sub-continente.
Nas eleições bolivianas pós-ditadura de Bánzer (1978, 79, 80, 85, 89, 93, 97 e 2001) existiam três grandes características: muito abstencionismo, nenhum candidato obteve, sequer, 40% dos votos emitidos (segundo o parlamento) e tinha mais candidatos e partidos em relação à população do que em qualquer outra parte do continente.
Atualmente o número de votos brancos/nulos e as abstenções foram baixíssimas. A Bolívia ficou dividida entre duas forças: o Movimento Ao Socialismo (MAS - 54%) e Poder Democrático Social (PODEMOS - 29%). A polarização atingida é maior que a da Venezuela. O MAS traz pela primeira vez na América do Sul, um presidente sindicalista indígena e como vice-presidente um ex-chefe de guerrilha marxista. A PODEMOS é liderada por empresários brancos e pró-ocidentais e seu candidato foi “Tuto” Quiroga, ex-braço direito do general Hugo Bánzer, que em 1971-78 encabeçou uma junta militar que inspirou o golpe de Pinochet (1973-89).
O MNR, partido que dominou ao país nos últimos 55 anos e de cujas filas saíram aqueles que estiveram em quase todos seus governos civis no citado lapso, reduziu-se a 6%. A União Nacional do milionário Doria Medina não chegou aos 8%, pois foi vítima da referida polarização. Outros partidos que antes chegaram a superar 1/6 ou 1/5 dos votos válidos ficaram moribundos: NFR, MIR, UCS e CONDEPA.
Por suas origens sindicais, camponesas e indígenas, por seu discurso socialista, por sua trajetória grevista e bloqueadora e pela presença de um ex-guerrilheiro na vice-presidência, o MAS poderia fazer um governo mais esquerdista do que o de Chávez. Conta com maioria no parlamento, ainda que a maioria das prefeituras e departamentos estejam em mãos do PODEMOS e da centro-direita.
No entanto, não se baseia nas FFAA e carece de petrodólares. Morales obteve 66% no colégio eleitoral mais povoado e importante (La Paz) e em torno de 60% nos outros 3 colégios do oeste andino (Cochabamba, Oruro e Potosí). Em Chuquisaca também ganhou. Em Santa Cruz (o segundo colégio eleitoral em população e motor econômico do país) o MAS conseguiu um respaldo melhor que o esperado (33%), mas ali, a direita segue colada. Em Tarija, Pando e, sobretudo, Beni os socialistas ficaram muito embaixo do PODEMOS.
A Bolívia ficou dividida eleitoralmente na região alta que, geográfica e politicamente são da esquerda enquanto as terras baixas apóiam uma direita que usará suas prefeituras e o regionalismo chapaco e camba para frear a política nacionalista do presidente. Morales pode percorrer o caminho de Lagos ou o de Além. O primeiro caminho implica seguir o que Lula e Vásquez fazem em Brasil e Uruguai: governos de esquerda que mantêm uma boa relação com os EUA e com os mercados abertos. O segundo implica em medidas “anti-imperialistas” que conduzam a choques entre sindicatos que demandem uma revolução e uma direita que não hesite em usar a força para evitar que o presidente cumpra seu mandato constitucional.
Os governos de frentes “populares” constitucionais duraram no máximo 3 anos no Chile (1970-73) e na Bolívia (1982-85). No primeiro caso Além foi deposto por Pinochet. No segundo caso Siles Suazo, depois do incentivo da semi-insurreição operária de Março 1985, deixou o cargo em eleições antecipadas, onde venceu a direita - a mesma que aproveitou o caos para lançar um pacote macro-estabilizador.
A vantagem que Morales tem sobre Além e Siles é que conta com uma maioria absoluta de votos e de congressistas, bem como mais aliados na região. Argentina, Uruguai, Brasil, Venezuela e Cuba têm governos de centro-esquerda que desconfiam do ALCA e procuram criar um bloco econômico e político latino americano.
Morales deverá seguir uma versão do caminho de Chávez. Vai querer consolidar-se mediante lentas e progressivas reformas, a mais importante agora é ir para uma constituinte, na qual, desejam ampliar direitos indígenas e um maior controle do Estado sobre o gás e a economia. Morales deverá negociar com a Espanha, a UE e Ásia para assim, contrapesar os EUA, que deverá usar à direita local para “moderar-lhe” ou, eventualmente, substituir-lhe com uma mistura de pressões populares, legislativas e castradoras como as que se viram nos Andes. Outro fator que criará dificuldades a Morales são os setores radicalizados (O Alto, a urbe pobre adjacente a La Paz, a Central Operária da Bolívia, a Confederação Camponesa e os trotskistas) que desejam desapropriar o gás ou ir para uma assembléia popular ou uma revolução social violenta.
* Isaac Bigio (http://www.bigio.org/), é analista internacional. DESDE SETEMBRO/2005 NÃO VÊ A SEU FILHO JOSÉ, QUE PERMANECE RAPTADO. (Tradução: Pepe Chaves).
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