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O aluno da EJA: jovem ou adolescente?


Sandra Maria Alves Barbosa Melo - Pedagoga, Espec. em Psicopedagogia, em Teoria da História e História Regional e está em fase de conclusão da 3ª Espec. Em PROEJA- Programa Nacional de Integração da Educação Profissional com Educação Básica Na Modalidade Educação de jovens e Adultos.

(21.11.09) Em nossa prática de formação continuada com educadores de adultos, em cursos de formação de professores, em diferentes redes Estadual e Municipal, a dificuldade de lidar com a diversidade de faixa etária em uma mesma sala tem-se destacado como tema recorrente nas falas dos professores. A maior demanda de jovens pelos cursos de EJA traz como conseqüência, a dificuldade do professor (a) atender num mesmo espaço e tempo diferentes níveis de conhecimento e ritmos de aprendizagens.

Em geral, as falas dos professores(as) apontam para aceitação do aluno(a) adulto, reconhecendo e valorizando o esforço diário para permanecer no curso, o esforço para aprender, para responder às tarefas e a manutenção da relação hierárquica professor(a) x aluno(a), no respeito com que o adulto trata o mestre. Quando se trata de adolescentes, entretanto, as inquietações são muitas: evidencia-se a dificuldade de lidar com a disciplina com a falta de motivação e de envolvimento do aluno nas tarefas escolares - conversam demais, se movimentam demais, não prestam atenção às aulas, não fazem tarefas são as queixas mais freqüentes.

A Educação de Jovens e Adultos apresenta hoje uma identidade que a diferencia da escolarização regular e essa diferenciação não nos remete apenas a uma questão de especificidade etária, mas, primordialmente, a uma questão de especificidade sócio-histórico-cultural. Os novos rumos da Educação Brasileira enfatizam a difusão dos valores de justiça social e dos pressupostos da democracia, do respeito à pluralidade fundados a crença na capacidade de cada cidadão ler e interpretar a realidade, conforme sua própria experiência, o que exige reorientar o olhar para propostas educativas que incluam o desenvolvimento da pessoa humana de forma integrada e completa, no atendimento de suas necessidades cognitivas, afetivas, motoras e sociais.

Uma primeira consideração deve ser a de reconhecer este jovem como um sujeito, cuja história não é a mesma de outros jovens da mesma idade, que estão ingressando num nível superior de escolaridade ou buscando cursos de especialização profissional para acessar ou se aprimorar para o mercado de trabalho. O jovem da EJA deve ser visto como uma pessoa, cujas condições de existência, remetem à dupla exclusão, de seu grupo de pares da mesma idade e do sistema regular de ensino, por evasão ou retenção.

Este jovem, pertencente ao mundo do trabalho, ou do desemprego, como é mais comum, incorpora-se ao curso da EJA, objetivando, na maioria das vezes, concluir etapas de sua escolaridade para buscar melhores ofertas do mercado de trabalho por sua inserção no mundo letrado. Desta forma, assemelha-se ao adulto que sempre buscou este tipo de curso para sua formação, mas diferencia-se dele em suas condições biológicas e psicológicas, apontando para uma demanda diferente da do adulto no atendimento escolar.

Situar este jovem num mundo cultural concreto, de uma determinada época da história, faz Contraponto à visão de existência do adolescente universal, com características emocionais típicas de desenvolvimento (como as de naturalmente fazer oposição ao adulto, criar situações constrangedoras, ser rebelde, etc.), como se a idade biológica pudesse ser, por si só, o único determinante de um conjunto de comportamentos comuns e de uma visão de mundo característica.

Nesta fase de desenvolvimento, o jovem que se encontra no mercado de trabalho e lutando para garantir sua sobrevivência, apresenta características diferenciadas pelo contato imediato com a realidade social, daquele jovem universal, abstrato, que só responde às etapas biológicas de seu crescimento, representadas por um conjunto de transformações corporais e psicológicas entre a infância e a idade adulta, tipificadas como adolescência.

As teorias de desenvolvimento humano, que se sustentam numa visão de homem constituída em dupla determinação, biológica e social, enfatizam a formação humana num movimento constante de vir a ser, em que cada fase da vida se define por um conjunto de características e necessidades biológicas, psicológicas e sociais, imbricadas, de forma que se realiza, simultaneamente, a formação da personalidade e o conhecimento do mundo objetivo. O conjunto de características e necessidades bio-psíquico-social recria-se nas etapas do desenvolvimento, tendo como base o que foi gerado na fase anterior e o que se oferece no presente, num processo constante de atualização.

O processo de desenvolvimento é dinâmico e decorre da inserção do sujeito em um determinado meio, das atividades em que se envolve, do sentido que atribui a essas atividades, das escolhas que faz ou deixa de fazer. Estes sentidos são incorporados do conjunto mais amplo das relações sociais, mediante a interpretação de cada um da perspectiva do lugar social que ocupa, pela bagagem cultural de sua trajetória e pelas características regionais de seu grupo. Entender o desenvolvimento humano dessa forma significa compreender que as mudanças pessoais não são resultados exclusivamente de processos individuais e biológicos, mas têm como parâmetros as condições objetivas que o meio social impõe a cada fase da vida.

Nessa perspectiva, a experiência na instituição escolar assume um papel mais abrangente do que o de emissora de certificados. Enquanto trabalho e enquanto escola, o jovem que freqüenta a EJA está mergulhado num meio que pertence ao adulto, que ele desconhece na qualidade de agente da sua história, cuja prioridade está em se manter no mercado de trabalho para garantir a sobrevivência. Esta condição de existência o configura como sujeito, cujas necessidades pessoais são perpassadas de maneira imediata não apenas pelas necessidades sociais, dadas pelo que a sociedade impõe aos de sua idade em condição social privilegiada (o preparo para uma profissão, em caráter de aprendiz), mas às necessidades que a sociedade impõe ao perfil do adulto: sobrevivência, luta pela vida, enfrentamento do mundo do trabalho.

Numa sociedade como a nossa, cujo valor social dado à escola é muito grande, o fato de uma pessoa não ter estado na escola, numa fase em que deveria estar, é uma marca distintiva como a da pobreza, é característica da condição de subalternidade, da exclusão oriunda de suas raízes culturais, imposta pelo grupo dos letrados. A possibilidade de superação deste estigma destaca a EJA como um dos meios privilegiados de mudança, se considerada a afirmação de Rubinstein (1969): através de sua atividade socialmente organizada, o homem se converte em membro e representante de um todo social:os motivos sociais se convertem em seus motivos pessoais (...) desta forma, se eleva por cima do plano da mera existência orgânica e se incorpora ao plano da existência social. (p.204)
A escola pública como lócus de formação do jovem e do adulto

Considerar o meio humano como condição de humanização remete à uma visão de escola como um espaço social privilegiado de formação. A educação escolar, sistemática, intencional, deve dirigir-se primeiramente à personalidade inteira da pessoa e, ainda que priorize o trabalho com o conhecimento, a ação pedagógica influi de forma abrangente em todas as suas dimensões. Nesse sentido, a escola deve levar em conta que as necessidades do aluno são de ordem diferenciada: motora, cognitiva, afetiva e social e minimizar qualquer uma delas significam comprometer o processo como um todo. O aluno leva para a escola características de seu ser biopsíquico indiciado de suas condições materiais e sociais de existência, e a escola, como um fator que introduz no cotidiano um tempo de dedicação e exige inúmeras adaptações não pode se furtar ao trabalho de ensino/aprendizagem descomprometido com o processo de desenvolvimento intelectual, social e moral, que ocorre simultaneamente à aquisição de conteúdos e disposição para avaliações.

A escola precisa ser um ambiente onde o sujeito aprenda a vida social e democrática não só pela transmissão ordenada das lições dos livros, mas também pelas experiências da vida cotidiana, por meio de pesquisas, análise, reflexão de sua condição e troca de idéias em que possa refletir sobre a condição do outro, perceber em que aproximam ou se distanciam, quais são os conflitos e quais os consensos possíveis. Deve propiciar aos jovens uma análise crítica da estrutura social, administrativa e política, para acompanhar as mudanças sociais de seu tempo, a fim de que não fique alijado da vida real e deve ainda se responsabilizar pela sua formação integral, desenvolvendo uma postura ética, fundada em valores dignos de um cidadão comprometido com os problemas sociais vigentes em sua realidade. Enquanto organizadora de novas perspectivas para os alunos, tanto no sentido de satisfação da necessidade pessoal mais imediata, como aprender a ler e escrever para atender à demanda de uma sociedade letrada e garantir a própria sobrevivência, quanto para alargar gradativamente a perspectiva de cidadão, num sentido mais social, mais amplo, ao transformar sua necessidade pessoal de saber ler e escrever numa atividade de participação crítica da vida em sociedade.

Cabe à escola conjugar, ao mesmo tempo, os conteúdos do ensino e as disciplinas escolares com o gosto pela verdade, o espírito crítico, a consciência de suas responsabilidades sociais, objetivando a conquista da autonomia da pessoa do jovem. O grupo de professores – e o professor (ª) de cada sala em particular – precisa ter em conta que sua prática pedagógica não pode se esgotar na relação conteúdo-rendimento-indivíduo, que essa prática pode alcançar o desenvolvimento da pessoa integrada e completa, fortalecendo a postura de cada um e a consciência do grupo enquanto cidadãos e priorizando o respeito por si mesmo e pelos outros.

Bibliografia
DEBESSE, M. A. A Adolescência. Lisboa: Publicação Europa-América, 1993.
FERRARI, S. C. Dar voz ao aluno do supletivo – mudanças pessoais e suas razões. Tese de doutorado, PUC/SP, 2001
RUBINSTEIN, L.S. El desarrollo de la psicologia: principios y metodos. Habana: Editorial Pueblo y educación, 1979.

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- Araguaia! O Vale dos esquecidos
- Ética para vida - Final
- Política ou politicagem?! (Eleições 2004)
- E agora PT?
- Ética para vida - I
- Soma de todos os perigos
- Mais empregos
- Dignidade da pessoa humana
- Momento positivo
- “Uma herança maldita” e um cavalo paraguaio
- Mais respeito
- Como votar bem - Final
- Campanha eleitoral planejada e quais as chances de reeleição
- Como votar bem - III
- O Médico Divino
- A vez do ensino técnico
- Como votar bem - II
- O campo continua estagnado
- Entrando pela porta aberta no Céu
- Parque da Serra do Caiapó: um sonho de 59 anos
- Função social do contrato pelo novo Código Civil
- Como votar bem - I
- Bebida alcoólica e a lei
- A política é complicada...
- Quanto custa o processo legislativo? (final)
- O futuro da Alca
- A destruição da economia nacional
- Quanto custa o processo legislativo? (III)
- Os hackers e os tribunais
- O que penso do jornalismo
- Quanto custa o processo legislativo? (II)
- Quanto custa o processo legislativo? (I)
- O novo Vietnã
- Bancos exploram servidores
- Uma pequena história de como empreender
- A Internet pode salvar a democracia
- Há 40 anos todos conspiravam pela democracia
- Falta de água no mundo
- Há necessidade de tantos vereadores?
- Bundas nunca mais
- O FMI é o inimigo
- Milô e Milau
- Futebol do Interior
- Estamos consumindo ou sendo consumidos?
- Pensamentos constitucionais
- Deterioração do patrimônio público
- Vícios municipais
- O Amigo de Sempre
- A publicidade auto-promocional do agente público
- O Dia do Jubileu
- Transgênicos: embalagens regulamentadas
- Desafios do jornalismo
- A Justiça em Aristóteles
- Tributo aos antigos caminhoneiros
- É publicidade ou propaganda?
- Defeitos, silencia-se
- O Treinar Sempre
- Os vírus somos nós
- Piração consciente
- Os zumbis de Brasília - Crônica
- Onde estão os cursos técnicos?
- Cientista brasileiro revoluciona tratamento estético facial
- A Queda de Cristovam
- O homem invisível
- Incertezas
- Extremos da Vida
- Reserva legal ou confisco
- Educação e Ideologias Canhestras.
- Educação Pública: Uma situação Caótica
- Eleja a pessoa, não a caricatura
- À QUEM PRETENDE JOGAR FUTEBOL
- O Pão que desce do Céu
- Trabalhar mais em 2004
- Genealogia do Povo brasileiro
- Adolescentes, porcos e prisões
- O maior educador da região
- Investir no conhecimento
- O maquiavelismo como show
- A lenda do álcool
- CORINTHIANO, HEIN?
- Persistência, o segredo do negócio
- MATRIX e outras seduções subliminares
- O Mandamento de Deus
- O Mistério dos Anjos com Grande Voz de Trombeta
- Palavras de Huender
- Partidos políticos e candidatos
- Política, vocação ou profissão?
- Uma visão sobre política

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